sexta-feira, 15 de julho de 2011

Mariposas

Nas raízes da matéria, borboletas batem suas asas, em moto-perpétuo, no endométrio do útero terrestre. Em seus ramos; no mundo da retina, seus habitantes tem as almas revestidas por espelhos e seus corações são projetores multimídia que projetam no outro suas próprias almas. À direita, dois meninos dão-se as mãos e prendem-se como se enrolados com cordão umbilical. À esquerda, um menino e uma menina, fazem o mesmo. No centro, duas meninas, e na frente delas, um menino que jamais teria seu corpo preso a outro, mas tinha a alma presa na menina que estava há 100 metros dele, presa temporariamente e com seu consentimento, em outro menino. No corpo do primeiro menino citado; o reflexo de seu parceiro. No corpo de seu parceiro, o reflexo de si. No corpo das meninas, o reflexo de uma na outra. O menino se refletia na menina, e ela se refletia nele. O menino com o corpo livre e a alma presa, refletia-se na menina, e havia reciprocidade. Em todos, havia em seus ventres uma manada de borboletas que executavam incessantemente seu trabalho e mantiam a luz de seus corações acesa. Juntos, cada casal, mergulhava na neve, esquiava nas quedas de água, voava no fogo, cheirava música, ouvia chocolate, comia montanhas.
No entanto, um dia, sem predestinação, houve um pane parcial na distribuição da energia produzida por elas. Os corpos dos espelhados tornaram-se brancos. Eles desenrolaram-se e curvaram-se como casulos. Passaram-se dias de nevascas, e em agosto, eles ousaram espiar o céu. Borboletas pintavam de arco-íris o céu cinza, e diante de tal paisagem, o blecaute terminou; suas moscas internas não foram capazes de soprepujar o trabalho infindo das borboletas operárias. Em outros meninos e em outras meninas, novamente foram prendidos pelo cordão umbilical e voltaram a projetar-se, até que, finalmente, tornaram-se árvores. Tornaram-se fixos um ao outro como raízes. O Tempo correu para eles como esteira. Cada vez mais rápida e mais rápida e mais rápida e mais rápida. Até que a velocidade ultrapassou a destreza de seus corpos e eles tombaram. Adentraram novamente a crisálida. O galho que a segurava elevou-os às raízes, e lá, cada um ganhou um par de asas e tornou-se operário da eterna usina do Amor, que produz energia infinita para os inumeráveis habitantes dos ramos.