Preciso escrever para me libertar. Como minhas palavras podem ser tão malditas? Ao tempo em que elas me prendem em um sistema escravocrata, somente elas podem dar minha carta de alforria. Elas são tão negras. Negras por serem tão brancas... brancas como a alma. Mas por que elas me parecem tão negras? Negras e brancas como o mistério. O que surgirá entre aquelas cores? O que acontecerá na próxima cena? Cor do oculto. Cor do luto. O que há depois da morte? São elas minha maldita sorte? Oh, Felipe... liberte-as... assopre-as... a maioria se perderá e se renovará no ar. Deixe-as renová-las em sua mente também. Entretanto, haverá outras que ficarão circulando no ar eternamente. Que ficarão nas células. Que adentrarão almas. Que serão passadas de geração em geração. Palavras medicinais. Você acha justo prendê-las dentro de si somente pelo seu estúpido medo de parecer idiota? Idiota e covarde seria você cortar a liberdade delas. Entenda, Felipe: Você só é um médium. Suas palavras são os espíritos. Você não as cria, você só as liberta. Tentar prendê-las te atormentará ainda mais. Serão como martelos que latejarão incessantemente em sua mente, serão como as mais dolorosas técnicas de tortura, você será torturado até se render, até gritá-las. Você não tem culpa, amigo. Você sequer tem escolha. Simplesmente é seu destino... seu carma... sua missão... seu daimon... o nodo norte da sua alma. Aceite-as, aceite-se!
Suas palavras são o Sol, você só é a Lua. Você necessita delas para ser iluminado. Nem sempre você será Lua Cheia, mas elas jamais te abandonarão, e quando ela aparentar estar fora do curso... espere. Você se renovará e voltará a brilhar. Elas sempre estarão aí mostrando ao mundo todas suas fases e faces. O que seria de você sem elas? Como seriam seus pensamentos? Ainda mais caóticos... Elas te dão a liberdade de ser o que você quiser. Sem elas, você seria somente um animal movido a instintos. Pensar te assustaria. Todo aquele dilúvio de imagens sem que você pudesse compreendê-las e organizá-las. Sua vida seria sem Arte. Quando você se sentisse mal, como você poderia se justificar dizendo que você é distinto por ser artista? Escrever é redenção. Falar também. Não se cale. Nem tudo o que você falará será proveitoso, é óbvio. Todos são assim. Mas há tanta coisa a ser dita por você... tanta liberdade... tanta alma... tanta regeneração a ser feita. Lembre-se de todas as vezes que suas palavras foram heróinas: provocaram salvação e fantasias. Foram várias, você sabe. Então recorde-as e povoe sua mente com elas. Esqueça o irrelevante... elas se renovaram no ar. Por que você insiste em lembrá-las? Que estupidez!
Elas mais uma vez realizaram sua missão. Como aquelas borboletas que chegaram ao santuário das mariposas. Agora elas voltam para a casa, para sua intimidade, para se acasalarem e um dia libertarem através de você tanta poesia, tanta arte e tanta cura. Elas voltaram para o negro como as cigarras que estão debaixo da terra esperando anos para virem a luz e conquistarem o céu e o mundo com seu canto. Canto que ultrapassa a audição humana. Canto que só espíritos podem ouvir. Canto do nada e do tudo. Quanta beleza há naqueles lábios se movendo... Não posso ouvir o que sai da boca que eles circundam... Mas ao ler cada expressão daqueles lábios e daquele rosto... Eu sei que é alma. É luz. Quanta luz, quanta liberdade, quanta beleza, quanta leveza, há no canto do nada, no canto do tudo.