terça-feira, 17 de maio de 2011

(Re)Gênesis

Ainda sinto no corpo da minha alma, a pele atravessada por espadas que com sua lâmina, sadicamente, lhes coçavam os ossos, e sem consentimento e sentimento permitia que pelas crateras por ela cavada, a Luz entrasse e iluminasse seus lençóis freáticos, que encetava a vazar dos copos cristalinos de seus espíritos. Sinto os maremotos correndo há 1110km/h pelo encanamento da garganta e dirigindo-se ao pulmão, os seios da Liberdade perfurados, os pregos latejados incessantemente na vagina, a forquilha como pescoço biônico, o corpo em ebulição – quiçá as águas de seus corpos não evaporassem e atingissem o céu que lhes renegavam –, o espírito; o fôlego da vida, poluído pela fumaça do incensário. A roda das reencarnações; a roda do despedaçamento. O corpo; o pêndulo medidor do tempo.
Sou, na outra âmbula da ampulheta, a âmbula que resguarda das impurezas da moral cristã a eucaristia dos hereges. Se não lhes pude conceder a unção dos enfermos, ungirei este solo com o sagrado sêmen, casamento entre a Libido e o Amor, que origina a hóstia humana. Meus espermatozoides, após séculos aprisionados pelo reformatório católico que tentaram instituir na Alma Universal, finalmente são libertados e deslizam pela pele da Terra, grávida da Era de Aquarius.
Os destroços dos sacrílegos, um dia desamparados em putrefação, tornaram-se adubo. A Luz solar e lunar, as correntes de ar, a velocidade, os movimentos de precessão, rotação, translação, e as altitudes, anunciam que há chegado o momento de se plantar e colher a primavera da Heresia: O inferno dos moralistas, o purgatório dos temerosos. Do céu, cai como um meteorito uma moeda, que finalmente equilibra a desbalanceada balança que durante as trevas só uma taça de vinho a pesava. O vento desvenda os olhos de Diké. A espada torna-se pronome reflexivo dos descendentes daqueles que um dia a governaram. Eu e meus irmãos, que carregamos em nosso DNA os genes dos hereges, clamamos por justiça.
Os pólos se degelam, a árvore do conhecimento do bem e do mal é desenraizada, um dilúvio se inicia; Deus decanta da Terra os sais. Cessam as chuvas. Da Fossa das Marianas, flutuamos até a superfície. As águas batizam-nos e revestem de Cristo nosso cérebro, coração, pulmões, fígado, rins, sangue, músculos. Deixamos o útero, e finalmente, chegamos a Luz. O arco-íris desponta-se no céu selando a aliança matrimonial entre Deus e esta nova geração que nasce. O tesouro, um dia em seu fim escondido, está semeado por todo o planeta. Todos caminhamos sobre as águas. Estamos nus e não nos envergonhamos. Ser bom é, inevitavelmente, nosso destino. O Mundo tornou-se um paradisíaco aquário de cristal que adorna o Universo de Deus.
Neste (Re)Gênesis, Deus havia criado a Luz, a Cura, o Sol, a Calma, a Arte e o Espírito, e havendo Deus acabado no sétimo dia a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera. O oitavo dia jamais chegou; o sete permaneceu-se oito.