Escorreguei pelas laterais do meu Ser a um lugar onde não mais pude alcançar e agarrar-me a minha Alma. Na tentativa de reinventá-la, busquei seu embrião na água-viva que desenrola-se de dentro do cigarro e baila no ar tão leve quanto a Morte. No sexo que, como teia de aranha, tentou emaranhar-me nos fios do instinto a fim de comer-me. Na insônia que dilatou minhas pupilas para que eu enxergasse melhor o esgoto da alma humana, onde é depositada toda a merda; tudo o que é inútil aos sentimentos e sensações. E, pelo álcool que, como eu que deixou-se ser levado pela corrente de ar poluído da juventude, seguiu as correntezas do meu sangue rumo ao meu centro. Também pintou com a cor desse, os meus olhos, vitrais inconstantes que trazem à Luz minha Alma pitoresca. Diante de uma poça de lágrimas desaguadas em meu rosto após a tristeza unir-se a raiva como as águas dos rios Negro e Solimões que encontram-se, pude reconhecer através do reflexo dos meus vidros vermelhos, que a Alma instintiva que busquei no cigarro, no sexo, na noite, e no álcool, não me era natural. Então, houve o nascer da Alma em um solstício de verão e a água, espírito indulgente, evaporou.
Minha genética reside na sobriedade, na rotina de quem sou no dia-a-dia, na minha música, no meu chá, no meu café, no que escrevo, no tédio de quando me perco, na glória de quando me sinto. Por mais que meus movimentos às vezes a ocultem de mim, deixe-me afélio ou periélio, ou que minha mente com suas nuvens netunianas impeçam-me de vê-la, a Alma é um Sol que nunca se vai, que se mantém constante em seu brilho, à espera do dia que voltem a enxergá-la.